Quem me conhece sabe que eu tenho mil histórias sobre perrengues para contar. Ou eu sou muito azarada (comente aqui se você também passou por alguma coisa, só pra eu me sentir melhor) ou tudo acontece comigo (o que dá praticamente na mesma).

Se você não está muito a fim de entender como tudo aconteceu, pode pular pra parte das dicas. Mas se você quiser ler um pouca da história, ela começa agora! Ahh, por mais que pareça triste, eu juro que não é. Eu dou muita risada quando conto para as pessoas.

Como tudo começou…

Durante o meu intercâmbio, eu vivi as melhores experiências da minha vida. Queria aproveitar tudo ao máximo e mostrar como eu conseguia ser independente sozinha.

Certo dia, na minha penúltima semana estudando em Malta, eu não estava muito a fim de ir para escola, era a última semana dos meus amigos e por isso, cada noite tinha uma despedida diferente. Então, eu tive a brilhante idéia de ir até o médico e pedir um atestado. Eu tinha ido com uma amiga há 2 semanas e ele deu um atestado de 3 dias por causa de uma infecção urinária, não pediu exames… nada! Ela só apontou aonde estava doendo. Na hora pensei: “vou fazer a mesma coisa.”

Na hora, o médico me perguntou aonde era a dor (eu tenho sérios problemas com direita ou esquerda), apontei pra qualquer lado e ele disse que a dor ali não era normal. Me receitou um remédio pra aliviar a dor e pediu para eu fazer um exame de urina. Fiz, sabendo que não ia dar nada. Voltei pra casa e dormi o resto da manhã.

A tarde combinei de ir andar na praia com um amigo, andamos, conhecemos lugares novos, terminamos de planejar nossa viagem da próxima semana e eis que meu celular toca. Era o médico dizendo que meu exame de urina não tinha dado nada (ah vá), eu falei que já estava melhor, mas ele insistiu pra eu ir até o consultório dele.

Chegando lá, ele disse que ia me encaminhar para novos exames e disse que um médico iria até a minha casa. Depois de 40 min, surge uma ambulância na minha porta e uma enfermeira pedindo pra eu pegar uma troca de roupa, só em caso de necessidade.

Até aí eu tava dando risada de tudo.

 Aí o negócio começou a ficar sério…

Meu amigo (e irmão de coração) pediu pra ir comigo e chegando no hospital tive que fazer um milhão de exames. Eu não tive febre e não senti NADA de dor. Depois de muito tempo, o médico voltou dizendo que meu apêndice estava inflamado e se eu não operasse naquela noite, eu iria morrer.

Falei que não ia operar, que eu não tinha nada e eles me disseram que não poderiam me liberar. Depois de muita enrolação e de conversar com os meus pais, eles (meus pais) acharam melhor eu operar. “Apêndice é grave, de uma hora pra outra você pode morrer”. Operei super contra a minha vontade.

Eu falei que eu tinha convênio e eles disseram que não estavam conseguindo contato, que eu deveria fazer um depósito de 500 euros só por garantia. Na hora de passar meu cartão, o enfermeiro disse que como era caso de cirurgia, ele passaria 3 mil euros. O valor seria reembolsado após eles conseguirem contato com a seguradora.

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Antes da cirurgia, ainda sem entender como o negócio tinha ficado sério…

Tive que responder uma série de perguntas, em termos técnicos em uma língua que não era a minha. Entrei para a sala de cirurgia e ouvia os médicos conversando em maltês, eu não fazia idéia do que eles estavam dizendo e nem do que ia acontecer comigo.

Quando voltei do centro cirúrgico, encontrei meus amigos me esperando e a minha mãe no telefone. Eles ficaram no hospital todo o tempo desde que eu fui internada. Meu amigo inclusive perdeu a própria despedida (desculpa por isso, Má).

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A sorte de ter amigos que tiram foto enquanto você ainda está grogue da anestesia

No dia seguinte, a ficha caiu. Meus amigos estavam ao meu lado o tempo todo, eu não ficava sozinha nenhum minuto. Mas ainda assim é diferente. Se você precisar pedir ajuda, você precisa fazer em outra língua. Se você precisar comer… bom, comida de hospital já não é lá aquelas coisas, mas em Malta… era péssimo! Em compensação, meu quarto tinha uma sacada gigante com vista para o mar (que eu nem aproveitei, porque não conseguia levantar da cama).

Quando eu tive alta (depois de 2 dias), tive que esperar ainda por quase 2h sentada em uma cadeira super dura para resolver a questão do convênio. Aí que eu entendi o que era dor. De um lado, o cara do financeiro dizia que o convênio não tinha tentado contato. Do outro, eles me garantiam que estavam tentando e o hospital que não respondia. O cara do hospital só dizia: paga os outros EUR 1.500 e você pode ir pra casa (a cirurgia ficou em EUR 4.500).

Depois dessas 2h, e de uma ligação, ele disse que eu estava liberada. Mas que o valor vinculado no meu cartão, só poderia ser devolvido de segunda a sexta (era sábado) e eu deveria voltar no hospital e solicitar pessoalmente. Acho que eles não entendiam que eu tinha acabado de operar… Mas ok!

O final feliz…

A recuperação foi horrível!!! Fiquei 4 dias de cama e com muita dor. Eu viajaria na próxima semana e ficaria 3 semanas fora, mas estava recém operada e mal conseguia andar.

Não tomei antibiótico e nem anti-inflamatório, porque simplesmente… esquecemos (sim, bem simples assim, achei a receita um mês depois quando já estava indo embora de Malta). Nessa hora que vi como sempre fui muito dependente dos meus pais. Se eu precisasse de um remédio, eles comprariam, eu nem precisava me preocupar.

Mas a minha sorte é que eu não tive nenhum problema por não ter tomado os remédios e que eu pude contar com três amigos que eu prefiro chamar de anjos. Eles cozinhavam, me davam remédio pra dor e me ajudavam em tudo o que eu precisava.

Perdi todas as despedidas dos meus amigos, mas muita gente foi me visitar, ganhei vááááários presentes e fiz questão de voltar pra escola quando consegui. Como Malta é uma ilha bem pequena, todo mundo da escola sabia o que eu tinha passado (menos a parte do “só queria um atestado”) e até quem eu nem conhecia vinha me abraçar e dizia que tinha torcido pra eu ficar bem logo. Eu recebi tanto carinho, mas tanto carinho que hoje eu olho pra minha cicatriz e fico até feliz por tê-la.

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Rolou até foto com o médico e a enfermeira

Pode parecer que não, mas esses tipos de situações fazem você amadurecer muito, ficar mais resistente e ainda servem como aprendizado… o principal deles: Nunca mais pedir um atestado se não estiver com nenhum problema.

Mas se eu pudesse dar algumas dicas…

  1. Tenha sempre um seguro de viagem

Eu não achava que era necessário até precisar muito. A questão é que você nunca espera que vai acontecer alguma coisa com você, mas uma cirurgia inesperada, uma fratura, uma dor de dente ou até mesmo uma intoxicação alimentar pode causar um prejuízo gigante.  A verdade é que tudo pode acontecer e no exterior tudo é mais caro (se não for pelo valor, será pela conversão). Um simples exame de sangue é pago a parte (e costuma ser bem caro).

Quando fechei meu seguro saúde, meu cartão de crédito me ofereceu um mês de graça. Depois meu próprio convênio do Brasil tinha a possibilidade de trocar para o internacional (pagando a mais por isso, é claro). Se você já tem um seguro saúde aqui, vale a pena falar com a sua corretora.

      2. Verifique se não existe um médico do seu convênio

Dias depois da minha cirurgia, um amigo meu teve febre e começou a sentir dores do lado direito. Como ele sabia da minha história, ficou preocupado e chamou um médico do convênio que o encaminhou para alguns exames e viu que não era nada.

Se eu tivesse ido a um médico do meu convênio, tenho certeza que não teria operado, porque eu realmente não tive nada.

      3. Se você não tiver um médico do convênio, procure um hospital público

Na lista do Itamaraty existem vários estabelecimentos que tratam estrangeiros com um custo reduzido ou até mesmo sem nenhum tipo de custo. Vale consultar.

      4. Tenha um cartão de crédito internacional

Pelo menos em caso de emergência. Era bem difícil eu usar o meu cartão por causa da taxa de IOF (em alguns casos, pode até compensar pela conversão de moeda e tal), mas é sempre uma caixinha de surpresas, você nunca sabe o valor que vai estar o euro/ dolár/ ou qualquer outra moeda, quando sua fatura fechar. Além disso, cartão de crédito é sempre um vício né? Você pode acabar perdendo o controle e se complicar depois.

Mas para uma emergência é sempre válido.

      5. Não pague o valor total logo de inicio.

Se na pior das hipóteses você tiver que fazer a cirurgia, mas não conseguir contato imediato com o convênio, não deixe o hospital pagando o valor total da cirurgia. É muito comum esse esquema de depósito, no entanto, muitos lugarem agem de má fé e não tentam contato com o convênio. Você é a garantia de que o contato será feito. Por isso, não deixe o hospital sem a liberação do seu convênio, a dor de cabeça para o reembolso é muito pior depois.

Acho que é isso, senti vontade de falar sobre isso, porque essa semana fez 4 anos que eu passei por isso e porque é uma situação bem comum de acontecer.

Se você tiver alguma outra dica ou perrengue pra contar, comente aqui ou mande um email para goprorole@gmail.com. Vou ficar tãããão feliz!

Beijos